segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Você se foi



Você se foi da mesma forma que veio, de maneira inesperada.
Você se foi e me deixou aqui, com sonhos.
Você se foi com o tempo, sem coragem de me dizer adeus.

Eu já havia decidido e aceitado que não gostaria mais de ninguém.
Resisti!
Tentei ao máximo, mas dia após dia você foi me mostrando algo que parecia tão real que já não havia em mim mais forças capazes de me fazer lutar contra o sentimento que começou a existir aqui dentro.

Entreguei-me!
Entreguei-me de corpo e alma a você, vivi intensamente cada momento e cada palavra sua.
Como era bom te sentir em mim através das coisas que você escrevia, me fazendo ver uma realidade mais leve e possibilidade nos sonhos.
Você conseguiu fazer com que eu voltasse a sonhar.

E agora você se foi, se foi e me deixou aqui, aqui no meio de palavras vazias e sonhos que não se realizaram.
Você sabe o quanto dói a morte de um sonho?


Você se foi mesmo depois de dizer que não desistiria e que ficaria comigo pela vida inteira.
Sonhos!
Apenas isso, acho que acordei.

AE.28/08/2008-RA

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sem inspiração



O que escrever quando se está assim?
Sinto algo que vem de dentro, que não consigo controlar.
Algo forte que precisa ser revelado.

Será isso inspiração?
Não sei.
Nada faz sentido.
Tudo desconexo.

Sentimentos!
Algo que provoca ação.

Terá ligação inspiração e sentimento?
Não faz sentido?
Não importa, não é essa a intenção.

O intuito é mudar, trazer o que está dentro para fora.
Transformar através da ação.
Renovar, dar espaço para o novo.
Novos sentimentos, e assim continuar, mais leve, embora do mesmo jeito.
Mudar para permanecer a mesma por fora, mas diferente de antes por dentro.

Escrevo não para fazer sentido, e sim para aliviar a alma.


AE.23/09/2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Clarice



Eu es­crevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço lite­ratura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resul­tado fatal de eu viver é o ato de escrever.

... e vou definitivamente ao encontro de um mundo que está dentro de mim, eu que escrevo para me livrar da carga difícil de uma pessoa ser ela mesma.

Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é tal procura de íntima veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração trêmulo so­frendo a incalculável, dor que parece ser necessária ao meu amadurecimento — amadurecimento? Até agora vivi sem ele!É. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o hor­ror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu co­ração está espantado. É por isso que toda a minha pa­lavra tem um coração onde circula sangue. Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silên­cio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escre­vendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito.

E não agüento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo. Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é pre­sente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável.


(Um sopro de vida – Clarice Lispector)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O passar dos dias


E assim segue a soma dos dias...
Tantos dias.
Tantas estações.
Tantas flores.

Uma nova estação se aproxima.
A estação mais esperada.
A primavera.
Estação das flores.

É tão bonito, olhar as plantas que resistiram ao tempo, exibindo suas flores.
É tão tocante ver que conseguiram, apesar de todos os percalços.

Quando as plantas estão floridas é quase que impossível se lembrar do caminho que percorreram para que chegasse a época de ver suas flores desabrochadas.

Quando há flores, tudo vale a pena, todas as recompensas estão presentes. E mesmo que haja algumas cicatrizes, nesse momento já não importa mais.

O vigor da planta e a beleza das flores se intensificam conforme os desafios da travessia.

Aquelas flores são apenas dela. Embora muitos possam ver e admirar, somente a planta sabe o que cada uma delas realmente significa.

Enfim, mais uma vez é primavera.

AE.12/09/2008-AE