sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Laço Frouxo


Hoje depois de três meses eu senti vontade de escrever, não para você, pois essa vontade passou na primeira semana. Passou depois de tudo, depois de subitamente eu ter percebido que já havia algum tempo que você havia deixado de ser quem era para mim. Depois de fotos friamente renomeadas alegadas como suas quando você dizia ter um propósito maior ao mostra-las. Tão friamente intencionado.


De todas as feridas que eu permiti que você causasse em mim, essa talvez nunca se feche, não porque sofrerei por isso até o fim da vida, e sim porque a atitude justificada superficialmente como carência revela o que há de mais profundo em alguém que age como você agiu. Será como um lamento, infeliz por ter acontecido.

Eu quis de verdade, disse que deixaria tudo para trás e sabe por quê? Porque eu vi a possibilidade de tornar um sonho real e, por saber que o que havia feito nunca poderia ser justificado de forma aceitável sem que houvesse um rompimento - inaceitável, inexplicável e abominável, então preferi deixar como estava. Mas tudo isso jamais saiu do meu coração.

Tivemos momentos realmente bons juntos que nada significaram diante da facilidade com que foram descartados por você. Quando eu doente fisicamente, insegura emocionalmente, queria confiar, mais uma vez fui deixada de lado no silêncio que tantas vezes me feriu. Tudo isso fez com que eu me sentisse insignificante, apesar de suas palavras e gestos, quando fez prevalecer seu egoísmo ao agir como se todos os maiores problemas do mundo fossem os seus, da sua frieza, incapaz de se colocar no lugar de alguém. Mas nem por isso eu o culpo, pois pude ver você me conhecendo minuto a minuto nos momentos em que estivemos juntos, como se muito pouco soubesse de quem eu era e do sentimento que eu carregava há tanto tempo dentro de mim,  desde o primeiro dia, desde o primeiro “Oi?”.

Laço frouxo, sem eixo e sem sustentação, incapaz de manter algo que conecta o todo em uma vida, o amor, e não falo apenas de homem e mulher, falo de forma geral, amor pelo que se faz, pelo que se é, e pela importância da vida de alguém que se conecta a sua.

Eu nunca consegui te entender, nunca fui capaz de ver claramente como você conseguia inverter todos os significados universais de condutas e falas. Tão confuso que me fez pensar – você pode me acusar de querer atenção, de querer entender, de querer estar junto, de querer dividir, mas nunca por ter agido de má fé, de ter testado você, de não ter sido verdadeira. Já eu não quero e nem posso te acusar de nada, eu nem saberia do que, simplesmente por você nunca ter permitido que eu me aproximasse o suficiente para saber quem de fato você é, pois de tudo que eu vivi longe ou perto, eu sempre soube que um dos dois não era real – o atencioso, comprometido e acessível ou o que ignora, se acha o único merecedor de compreensão no mundo, tão egoísta e frio que chega a dar medo.

No dia que me disse: “eu paro aqui” foi muito, muito difícil para mim, por tudo que eu sentia fisicamente que você nem se dignou em saber,e pelo que emocionalmente eu passei a sentir. Senti como se em segundos eu fosse parar de respirar, e por mais que eu esticasse as minhas mãos eu seria incapaz de tocar as suas, tão disponíveis poucos dias antes, antagônico e cruel.


Eu me desculpei por qualquer que fosse o meu erro, mas novamente silêncio. O silêncio que tantas vezes eu senti chorando a dor que ele me causava sem nunca ter sido capaz de oferta-lo a você, incapaz disso e de tantas outras coisas que você fez e eu consegui que suportar.

Eu tentei escrever, mas não havia nada dentro de mim que quisesse ser expresso, eu não mais o sentia dentro de mim, pensei que era por ser recente, então eu esperei, mas o que eu sentia antes não voltou e as minhas lembranças eram substituídas por fotos falsas renomeadas, por coleira, por mimimi, por “você não tem o direito”, pelo “eu paro aqui” e mais uma vez vi a janela se fechar.

Eu tive momentos de raiva, momentos de mansidão e momentos de nada, e confesso que estes últimos foram os que mais prevaleceram. Eu não sinto mais nada! Sei que é pesado dizer isso, eu mesma fiquei abismada quando constatei, e ainda sim eu esperei, quis ter a certeza do que eu sentia ou da ausência do sentimento. E aqui comigo nem seu silêncio ou falta estavam como sempre estiveram para me fazer companhia. Eu tentava recorrer às lembranças dos momentos presencias que tivemos e eu não conseguia mais sentir, não sei se foi por eles terem ficado pequenos demais diante de tudo o que houve após eles e as fotos... Hoje eu sei que foi ali que você começou a me perder, ou que eu comecei a deixar de sentir, e então eu compreendi a pequenez da presença compartilhada – a base era falsa – tanto que puderam ser tão facilmente descartados, primeiramente por você e depois, se tornaram muito distantes para mim. Duplamente chocada, pela facilidade que não deveria existir tanto de sua parte de ir e nem da minha por esquecer.

Hoje eu vejo tudo de forma tão diferente, mas não me arrependo, pois foi me permitindo viver que eu pude sentir o que hoje eu sinto. O lugar que antes era vazio pelo seu silêncio e atitudes dentro do meu peito, foi preenchido, não por outra pessoa, mas por mim, não sei como e nem que nome dar, talvez seja amor-próprio somado a consciência de que eu não deveria ter passado por metade das coisas que eu passei em todos os anos que eu esperei ter a chance de viver o que eu sentia.


O que eu sinto agora é leve, não sinto raiva ou qualquer coisa que o valha, talvez eu sinta pena, não sei, algo como uma judiação por todos os valores terem sido invertidos. Mas hoje eu consigo entender que a gente é capaz de perder a nós mesmos na travessia, mas que, sobretudo também conseguimos nos reencontrar.

E por isso, hoje me sinto bem em vir aqui e dizer - laço frouxo que agora desfaço dentro de mim.

AE.19/01/15-RA